
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
sábado, 16 de janeiro de 2010
Obscena por despir o coração - Hilda Hilst

Crônica de Hilda Hilst para o "Correio Popular" de Campinas-SP
Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá
de teta
de azul
de berimbau
de doutora em letras?
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar...
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro?
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor?
nave
ave
moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.*
Vamo brincá de autista? Que é isso de se fechá no mundão de gente e nunca mais ser cronista? Bom-dia, leitor. Tô brincando de ilha.
* Trovas de muito amor para um amado senhor - SP: Anhambi, 1959.
(Segunda-feira, 16 de agosto de 1993)
domingo, 1 de novembro de 2009
Amor de cão

Eu já me senti produto de armazém, de mercadinho, de conveniência.
Já me quiseram assim a qualquer custo, como criança que pede bala pra mamãe.
E eu era essa goma de mascar. Toda rosa e cheia de açúcar.
Quem é que não sabe que tudo fica um pouco sem gosto depois de algum tempo na boca?
De muito doce, o paladar pede salgado e depois ácido.
Esse amor de prateleira, de gôndola, de rotisseria, passa rápido que nem o apetite da gente.
Eu nunca fui muito dessa coisa de consumo de gente. De achar que era um brinquedo com uma função interessante. Quem não sabe que depois de um tempo acaba a pilha? E dá preguiça de comprar outra...e fica lá o boneco largado, com cabelo espigado.
Pra mim, certo ou errado, o meu amor é meio cachorro, confesso. Meu amor abana o rabo, lambe a cara do outro e dá a pata. Aprende truque novo só pra impressionar e não tem muita vergonha na cara.
Esse amor de cão não vê defeito, fica junto e pede carinho em momentos inoportunos.
Sai derrubando tudo e olha com cara de pedinte.
Mas cachorro também morde, precisa de vacinas e quando sai da coleira corre pra rua. Pula em gente estranha, sente ares de gente ruim, rosna, ataca.
No final das contas, esse amor acaba sendo mais amigo, mas sem muito orgulho. Amordeclarado e barulhento. É um amor que uiva, que agora, que deixa pegadas por onde passa.
Vou evoluir, quem sabe, para o amor felino. Bem mais independente e mais bonito. E quem é que nunca implorou um carinho pro gato, só porque ele é tão difícil?
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Resgate e futuro

sexta-feira, 9 de outubro de 2009
As cartas que eu nunca entreguei

Eu poderia encher uma gaveta. Um espaço na cômoda para elas.
Quase todas, eu perdi.
Cartas, mil cartas que eu nunca entreguei.
Por que elas não saíram de casa? Por que elas não foram endereçadas?
As cartas, todas as cartas que eu nunca entreguei, são quase anônimas se eu não as soubesse. Se me faltasse a memória, mas não falta. Talvez eu já soubesse, antes de começar a escrevê-las, que elas jamais seriam lidas por outros. Quem sabe elas não fossem cartas que apenas precisavam ser escritas, para que houvesse apenas a certeza de que certos sentimentos existiram e só a mim diriam respeito?
As cartas que eu nunca entreguei eram denúncias. Funcionaram como um remédio, paliativo de alguma dor ou excesso. Elas eram talvez, cartas para mim mesma. Organização de algum caos emocional.
Mil vezes chorei relendo as cartas que escrevi e depois rasguei. Talvez parte de mim lamentasse minhas perdas. A parte que ainda pensa e pondera. E essa exata parte é que não permite que essas cartas partam. É a minha fatia de amor próprio e lucidez.
As cartas que eu nunca entreguei talvez sejam ensaios para um folhetim de terceira. Talvez não sejam nada além de delírios tímidos. Só sei que elas existem e muitas foram extintas, quando havia tinta e eram de papel. As outras, virtuais, foram escondidas em alguma pasta de codinome idiota pra nem eu reconhecer.
Talvez, do que restou, eu organize por datas ou temas. Talvez as exponha em alguma galeria, com tinta e desenhos em volta. Talvez eu dê uma de Sophie Calle e tenha como tema da arte a minha vida, misturada com fantasia, pra ninguém no final saber o que é verdade e o que é mentira.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Zonas úmidas e um pouquinho de cartas de amor

Acabei de ler “Zonas úmidas, primeiro romance da escritora francesa Charlotte Roche. Logo em cima do título, em caixa alta lê-se “Mais de um milhão de exemplares vendidos.” Ótimo apelo. Peguei o livro vermelho na estante, sentei no anexo da livraria e já sabia que se não tivesse um texto bem impactante, não me prenderia à leitura. Não agora que ando ansiosa até os ossos , sem paciência com quase nenhum conteúdo. Acho que não estou numa fase muito curiosa, digamos assim.
Voltando ao tema, correndo os olhos pelas primeiras páginas, fiquei um pouco surpresa e logo fiquei animada pois parecia ter encontrado meu passatempo noturno para esses dias acelerados.
O tema central é sexo e só mesmo ele pra vender tanto livro de autoria estreante. Nem é sexo romântico ou qualquer coisa parecida com isso. A narrativa é de uma jovem que está em busca de prazeres carnais e aparentemente sem nenhuma culpa. A crítica do New York Times diz: “É preciso estômago forte para ler este livro”. Lançado o desafio, me juntei a um milhão de colegas também curiosíssimos.
Confesso que em alguns trechos fiquei um pouco surpresa, mas quase nada me deixou atônita e muito menos excitada. Pra ser bem sincera, achei triste a história. Muita solidão como pano de fundo, e isso sempre me incomoda. A verdade é que o livro não me chocou, tampouco me ameaçou um vômito. Tem trechos nitidamente demasiados, com carga excessiva de detalhes sórdidos, o que perde um pouco a graça. Me pega muito mais o sutil que o escancarado. E é bem isso o tempo todo. Feridas abertas, vaginas raspadas, um pouco de sujeira, de bissexualismo, dor e solidão, repito, e de tudo ali explicitado foi o que de fato me incomodou.
De qualquer forma acho que vale a pena essa história, que foi desacreditada por muitas editoras. Eis que está vendendo horrores e servindo de estímulo à leitura para muitos desinteressados ou por super ansiosos passageiros como eu. As feministas estão adorando a obra, vale ressaltar.
No mesmo dia que o comprei, estava com um exemplar de “Mil cartas de amor”...acho que o nome é esse. Achei fantástico o tema, pois reúne cartas verídicas de amor de personagens de todos os tempos. Sexo e amor são mesmo atemporais. Como o fazemos e vivemos é que muda um pouquinho ou será que sempre foi confuso e ás vezes dissonante? Será que a variação é só na linguagem ou o mundo está mudando os nossos sentimentos? Por fim, há a hipótese de ser absolutamente pessoal seu significado ou ainda sermos fruto da cultura que vivemos. Mas eu sempre digo que sexo, amor e estômago estão num nível complexo de entendimento. Instintivo , emocional ou genético, poucos explicam. O que sabemos é que são forças extremas. Melhor vivê-los.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Por favor,cativa-me.

Vira e mexe estou eu relendo os mesmos livros, ouvindo as mesmas músicas. Tem coisas que sempre nos emocionam, nos arrebatam como se fosse sempre uma primeira vez. Será que tomam novos significados?
Após um longo e sábio caminhar, o Pequeno Príncipe, dispôs-se a descansar...
“E foi então que apareceu a raposa:
– Bom dia – disse a raposa.
– Bom dia – respondeu educadamente o Pequeno Príncipe, que, olhando a sua volta, nada viu.
– Eu estou aqui, – disse a voz, debaixo da macieira...
– Quem és tu? – perguntou o principezinho. – Tu és bem bonita...
– Sou uma raposa – disse a raposa.
– Vem brincar comigo – propôs ele. – Estou tão triste...
– Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.
– Ah! Desculpa – disse o principezinho. Mas, após refletir, acrescentou:
– Que quer dizer "cativar"?
– Tu não és daqui – disse a raposa.
– Que procuras?
– Procuro os homens – disse o Pequeno Príncipe.
– Que quer dizer cativar?
– Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam.
É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
– Não – disse o príncipe. – Eu procuro amigos.
– Que quer dizer “cativar”?
– É algo quase sempre esquecido – disse a raposa.
Significa "criar laços"...
– Criar laços?
– Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim.
Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas.
Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
– Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também.
Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol.
Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra.
Os teus me chamarão para fora da toca, como música.
E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo?
Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! – Mas tu tens cabelos dourados.
E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo, que é dourado, fará com que me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e observou muito tempo o príncipe:
– Por favor, cativa-me! disse ela.
- Eu até gostaria – disse o principezinho – mas eu não tenho
muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a
conhecer.
– A gente só conhece bem as coisas que cativou – disse a raposa.
– Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma.
Compram tudo já pronto nas lojas.
Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos.
Se tu queres um amigo, cativa-me!
– Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.
– É preciso ser paciente – respondeu a raposa
– Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva.
Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada.
A linguagem é uma fonte de mal-entendidos.
Mas cada dia, te sentarás um pouco mais perto...
No dia seguinte o príncipe voltou.
– Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa.
– Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mais me sentirei feliz! Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!
Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
– Ah! Eu vou chorar.
– A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não queria te fazer
mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
– Quis – disse a raposa.
– Então, não terás ganho nada!
– Terei, sim – disse a raposa – por causa da cor do trigo.
Depois ela acrescentou: – Vai rever as rosas. Assim, compreenderás que a tua é a única no mundo. Tu voltarás para me dizer adeus, e eu te presentearei com um segredo.
O pequeno príncipe foi rever as rosas:[...]. “ E ao voltar dirigiu-se à raposa:
– Adeus... – disse ele.
– Adeus – disse a raposa.
– Eis o meu segredo:
É muito simples: só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível aos olhos.”
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”
Texto: SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Por Favor, Cativa-me [Título atribuído]
In: —. O Pequeno Príncipe. Trad. Dom
Marcos Barbosa. 48. ed. 15. impressão. Rio de Janeiro: Agir, 2004.
Cap. XXI, p. 66-74.