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sexta-feira, 9 de outubro de 2009

As cartas que eu nunca entreguei

Eu poderia encher uma gaveta. Um espaço na cômoda para elas.

Quase todas, eu perdi.

Cartas, mil cartas que eu nunca entreguei.

Por que elas não saíram de casa? Por que elas não foram endereçadas?

As cartas, todas as cartas que eu nunca entreguei, são quase anônimas se eu não as soubesse. Se me faltasse a memória, mas não falta. Talvez eu já soubesse, antes de começar a escrevê-las, que elas jamais seriam lidas por outros. Quem sabe elas não fossem cartas que apenas precisavam ser escritas, para que houvesse apenas a certeza de que certos sentimentos existiram e só a mim diriam respeito?

As cartas que eu nunca entreguei eram denúncias. Funcionaram como um remédio, paliativo de alguma dor ou excesso. Elas eram talvez, cartas para mim mesma. Organização de algum caos emocional.

Mil vezes chorei relendo as cartas que escrevi e depois rasguei. Talvez parte de mim lamentasse minhas perdas. A parte que ainda pensa e pondera. E essa exata parte é que não permite que essas cartas partam. É a minha fatia de amor próprio e lucidez.

As cartas que eu nunca entreguei talvez sejam ensaios para um folhetim de terceira. Talvez não sejam nada além de delírios tímidos. Só sei que elas existem e muitas foram extintas, quando havia tinta e eram de papel. As outras, virtuais, foram escondidas em alguma pasta de codinome idiota pra nem eu reconhecer.

Talvez, do que restou, eu organize por datas ou temas. Talvez as exponha em alguma galeria, com tinta e desenhos em volta. Talvez eu dê uma de Sophie Calle e tenha como tema da arte a minha vida, misturada com fantasia, pra ninguém no final saber o que é verdade e o que é mentira.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Viver para que haja arte

No fundo toda pessoa criativa está em busca de inspiração. Mesmo quando certas situações pareçam ser tão pessoais, o que se busca é um novo tema, uma nova música, um novo poema. Pode parecer loucura o que estou dizendo, mas acredito que está tudo intrinsecamente interligado e num nível inconsciente.

Ás vezes o sol não é tão amarelo, nem tão quente, mas para quê uma poesia, uma tela, um conto morno? Daí se explica certos exageros.

A vida é superdimensionada, e com ela todos os personagens transeuntes. Sendo tudo tão grande, a dor e a alegria também não serão mais ou menos.

Não é fácil conviver com os superlativos. Tudo assim em demasia, nos torna quase sempre cansados ou famintos. E haja paciência com tanto drama, com o excesso de alegria.

A mistura é tão complicada que a busca por preencher uma nova página, se funde com a própria alegria. É como se a nossa criação refletisse nossa vida. Transborda verdade, mentira, sonho, mas, sobretudo aquilo que necessita de forma. Muitas vezes esse resultado cria vida própria e diversos significados perante outros olhos e ouvidos.

É certo que mesmo quando se chora, é bom contar uma história e isso nos obriga a viver. Não tem jeito, mesmo quando soa fictício, o que a gente mostra é sempre reflexo de desdobramentos cotidianos. O que se inventa, parte de um sonho ou de uma possibilidade, do que se nega ou teme mas é sempre tudo o que lateja, tudo o que não cabe. Não dá pra ser então, metade.

Posso falar por mim ou por alguém. Ser expectadora, conhecer outros mundos, outras cores, apenas seguindo passos alheios Ás vezes somos pintores passivos, mas isso também diminui o egocentrismo e aumenta nossas possibilidades.

Seguindo assim a vida se confunde com a arte e a dor ou alegria vira verso, tinta, tom. É uma alquimia que tem a esperança de brilhar mesmo quando o real é chumbo ou de escurecer, ainda que a vida esteja sorrindo.